O nevoeiro que cobre o rio Douro impregna o ar com um cheiro que, à primeira vista, eu chamaria de mistério se não soasse tão cliché.

A névoa deslizante que envolve ambas as margens, bem como as seis pontes emblemáticas da cidade, confere ao Porto uma aura de frescura (para não dizer mesmo de frieza!) que transformou a cidade na nova capital da classe criativa da Europa. Deixe para Lisboa o prazer da contemplação infinita, da paixão implosiva, do verão interminável e, claro, das saudades, e as multidões enlouquecedoras para Berlim e Barcelona.

Tal como Bilbau, Hamburgo, São Francisco, Roterdão ou Portland, o Porto soube capitalizar a sua "síndrome de segunda cidade", o seu clima fresco (que contrasta com o calor – e o temperamento ardente – dos seus habitantes), para criar uma contracultura que finalmente se tornou mainstream. Agora, as pessoas pesquisam casas à venda no Porto para experimentar a vida rodeada por uma arquitetura cativante, um design inovador e uma comida de fazer crescer água na boca.

sunset over porto

No Porto, diferentes épocas arquitetónicas convivem lado a lado num centro urbano que – ao contrário de Lisboa – sobreviveu praticamente incólume ao terramoto de 1755. Isto significa que as estruturas medievais convivem agora com estruturas como a Casa da Música, uma estrutura em forma de diamante do arquiteto holandês superstar Rem Koolhaas, bem como com projetos concebidos pelo seu filho espiritual, Álvaro Siza, a força por detrás do Museu de Arte Contemporânea da Fundação de Serralves.

Acrescente à mistura centenas de outras casas, edifícios, estações de metro com linhas simples e curvas moldadas pela luz: o Porto é também o lar do melhor do movimento Art Déco de Portugal, com painéis de azulejos de cair o queixo que decoram as igrejas e as estações de comboios da cidade.

Deixe a sua mente vaguear tão livremente como os seus pés enquanto se perde no labirinto da cidade de lojas e escritórios encantadores e galerias e museus impressionantes. Não deixe de visitar a La Paz, uma marca de moda local cujos cofundadores, José Miguel de Abreu e André Bastos Teixeira, põem de parte qualquer noção de que o Porto é pouco mais do que um ponto de partida para os amantes do vinho em viagens românticas pelo Vale do Douro.

Deve dizer-se, e sublinhar-se, que a reputação do Porto como a irmã adotiva de Lisboa, há muito esquecida, transformou o Porto no novo destino fetiche dos que estão desesperados por escapar à moda decadente e quase passé de Berlim ou Barcelona, ou à agressividade e ao consumo excessivo de Londres e Paris. Uma cidade pequena, cercada por muralhas íngremes de vale, o Porto é manejável e ostenta uma rotina reduzida que coloca a vida numa escala mais pequena.

Nunca há demasiadas pessoas nos passeios, e os muitos parques cheios de pavões da cidade permitem-lhe abrandar e respirar. E, claro, há as vistas do rio – visíveis de quase todas as perspetivas da cidade, graças às suas encostas íngremes – repletas de barcos rabelos deslizantes, que no passado estariam carregados com barris de vinho do Porto. Ou seja, são visíveis de quase toda a cidade quando não está tudo envolto em nevoeiro.